Foto: Alan Santos/PR

Sete de setembro de 2021. O delírio das multidões como quem vê abundância de água no deserto. “Ou deixar a pátria livre ou morrer pelo Brasil”

Certa autoridade brasileira cujo nome guardo em segredo – ninguém saberá quem é – especializou-se em promover shows de comicidade. As pessoas choram de rir (e podem morrer de chorar) ao assistirem suas demonstrações de humor com afirmações e ameaças que passam da irritação à ira, ao ódio, ao ridículo.

Tudo nos espetáculos desse comediante é grande, impressionante, desproporcional, até o poder que ele pensa que tem e se atribui. O palco são as ruas e quarteirões das grandes cidades. A plateia são as multidões organizadas, a maioria sem máscara a exemplo do líder, e se acotovelam, se comprimem para aproximar-se dele.

Deliram como quem vê abundância de água num deserto ou fartura de comida às mesas costumeiramente vazias de alimentos. Escutam o autor da encenação, incentivam suas bravatas, sugerem outras maiores, inacreditáveis, como intervenção militar, dissolução do Congresso Nacional, fechamento do STF.

O líder cômico e perigoso, insuflado não se sabe por quem, ofende os demais poderes, ameaça descumprir ordens judiciais. Seus seguidores exibem fotos gigantes dele, fuzil à mão e montando fogoso cavalo, mas ele não imita Dom Pedro I, no sete de setembro, na sua montaria equestre proclamando a independência do Brasil. Prefere chegar de helicóptero, que cavalga nas alturas e muito mais rápido na direção do golpe.

“Suas demonstrações de humor com afirmações e ameaças passam da irritação à ira, ao ódio, ao ridículo”

Os manifestantes sonham rasgar a Constituição, substituí-la por ato institucional que fulmine a democracia, acabe a periodicidade das eleições (nem cédula eleitoral nem urna eletrônica), simbolizando empunhadura de fuzil e fuzilamento. Fuzilados serão os operários, os desempregados, as donas de casa, os moradores de rua, os idosos… As balas serão a fome, o desemprego, o preço dos combustíveis, a alta do custo de vida, o arrocho salarial, a redução das pensões e aposentadorias com desamparo aos idosos. O Brasil não precisaria de tantos velhos, daí a lerdeza da vacinação.

O problema da seca, da estiagem, da crise hídrica afeta a produção industrial, agrícola e energética do país. Ele, o todo poderoso, amigo íntimo, indo e voltando, de Jesus, resolverá com São Pedro, o chaveiro do céu, que abrirá as comportas d’agua. Vai chover tanto que o clima esfriará e o diligente líder já está importando, na sua operosidade, pinguins para os oceanos que se formarão aqui. Aliás, o frio é uma vacina para os excessos da linguagem.

O estadista a que nos referimos, em oportuno e respeitoso pedido de desculpas às autoridades, atribuiu ao calor da manifestação a consequência do seu entusiasmo, verborragia que beirou o limite da insânia, um braseiro de furor e ferocidade. Faltou gelo para amainar os ânimos, talvez por um descuido de São Pedro.

Os assessores desse político, cansados de tanto vexame e tanta crise, cotizam-se desde ontem para transformarem a ambiência palaciana e seus contornos em uma grande geladeira.

José de Siqueira Silva é Coronel da reserva da PMPE
Mestre em Direito pela UFPE e Professor de Direito Penal
da FOCCA

Contato: jsiqueirajr@yahoo.com.br
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11/09/2021 às 10:12

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