Foto: Diário do Comércio

Não é a proteção da mulher que dificulta sua contratação


Escrevo como homem, e justamente por isso procuro tratar esse tema com a cautela de quem reconhece seu lugar de fala. Não vivo na pele o medo, a violência, o assédio e a desconfiança que tantas mulheres enfrentam todos os dias. Mas, como homem, como cidadão e como profissional, também entendo que não posso assistir a isso em silêncio.

Tenho visto crescer um discurso perigoso: o de que proteger demais a mulher acabaria criando barreiras para sua contratação e permanência no mercado de trabalho. Sinceramente, penso que essa lógica está errada desde a origem e revela muito mais sobre o preconceito estrutural da sociedade e do próprio mercado do que sobre as mulheres.

O problema não está na licença-maternidade, na Lei Maria da Penha ou em qualquer outra proteção legal. O problema está em um mercado que ainda enxerga a mulher a partir do preconceito, como mais frágil, mais cara, menos disponível ou mais “arriscada” para contratar. Ou seja, o obstáculo não é o direito da mulher. O problema, na verdade, é o machismo disfarçado de argumento financeiro.

Quando uma empresa trata a maternidade como problema, ela revela muito mais sobre sua visão distorcida do trabalho do que sobre a capacidade da mulher. A maternidade, o cuidado e a proteção contra a violência não podem ser vistos como um peso individual da trabalhadora. São questões sociais, que precisam ser enfrentadas coletivamente pelo Estado, pelas empresas e pela sociedade.

É justamente por isso que eu, como homem, não vejo qualquer contradição entre fortalecer a presença da mulher no mercado e preservar, ou até ampliar, sua rede de proteção. Ao contrário: retirar direitos para torná-la “mais contratável” seria apenas sofisticar a injustiça. Seria dizer que, para caber no mercado, a mulher precisa se proteger menos, maternar menos, denunciar menos, existir menos como mulher real. E isso é inaceitável.

O caminho correto é outro. É dividir melhor as responsabilidades do cuidado, combater a discriminação nas contratações, garantir ambientes de trabalho seguros e impedir que direitos fundamentais sejam tratados como privilégios indevidos. Proteger a mulher não cria distorções. O que cria distorções é um sistema que ainda insiste em penalizá-la por ser mulher.

Como homem, o mínimo que me cabe é reconhecer isso com honestidade: durante muito tempo, a experiência masculina foi tratada como regra, e tudo o que fugia desse padrão passou a ser visto como exceção, custo ou inconveniente. Está na hora de romper com essa lógica.

A pergunta, portanto, não deveria ser como proteger a mulher sem atrapalhar sua contratação. A pergunta correta é: por que ainda existe um mercado que enxerga a dignidade da mulher como obstáculo?

Enquanto essa mentalidade não mudar, seguiremos errando o alvo. Porque não é a proteção que afasta a mulher do mercado. É o preconceito.


31/03/2026 às 19:04 – Por João Galamba, advogado trabalhista

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